BLOG PARA DIVULGAÇÃO DA LITERATURA RUSSA AOS FALANTES DE LÍNGUA PORTUGUESA.

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O poeta russo Vassili Jukovski (1783–1852) está entre os linguistas que contribuíram mais intensamente para o florescimento da língua e da literatura russas, na primeira metade do Século XIX. Contemporâneo de Pushkin e Gogol, recebeu elogios de ambos, sobretudo por suas traduções, que apresentaram ao público russo obras clássicas e contemporâneas do grego, do francês, do inglês e do alemão, tanto de prosa, quanto  —  e principalmente  —  de poesia.

Suas traduções são notáveis pela beleza, e o artigo abaixoé um dos dois mais conhecidos em que ele fala um pouco sobre suas concepções a respeito da tradução.


Traduções enriquecem uma língua. Diferenças de governo, clima e costumes necessariamente geram diferenças nos próprios idiomas; as traduções, familiarizando-nos com as ideias de outras nações, nos familiarizam ao mesmo tempo com os símbolos por meio dos quais elas expressam suas ideias; imperceptivelmente, por meio deles, transmitem-se para a língua uma grande quantidade de locuções, imagens e expressões à primeira vista alheias ao seu espírito, que depois se aproximam dele com auxílio da analogia, apresentando-se de início como palavra, imagem ou expressão meramente sofríveis, depois toleráveis, e por fim se tornam propriedade daquela língua também. Enquanto uma língua é rica apenas em obras originalmente escritas nela, os escritores usam locuções e expressões aceitas, e nos lançam seus pensamentos numa forma conhecida e com frequência completamente atenuada pelo uso; mas na tradução — e é preciso ter em vista, aqui, apenas, os tradutores hábeis — , a língua do tradutor imperceptivelmente se aproxima da língua do texto original, sem perder, nesse processo, nada que lhe seja próprio e característico. O compositor faz uso das próprias riquezas e, ao mesmo tempo, se para falar assim, os consome e esgota; o tradutor, ao contrário, pode-se dizer que conduz uma delicada operação comercial, por meio da qual entrega à sua língua tesouros estrangeiros; numa palavra, as traduções são, para uma língua, o mesmo que as viagens são para a formação intelectual.

Cabe aos poetas, na minha opinião, traduzir poemas; a tradução de versos em prosa é sempre a mais infiel e distante do original. Um dos principais encantos da poesia consiste na harmonia: na prosa ela ou desaparece, ou não consegue ser suprida por aquela harmonia que é própria da prosa. O mesmo pensamento, expressado por um poeta e por um prosista, age sobre nós de maneira diferente: em La Rochefoucauld [1] e La Bruyère [2] encontramos tantos pensamentos afiados e justos quanto em Boileau [3]; mas é muito mais fácil aprender de cor quarenta versos de Boileau do que dez linhas de La Bruyère e La Rochefoucauld: o ouvido ama a harmonia, e a harmonia poética é incomparavelmente mais agradável que a da prosa.

Outro encanto da poesia é o triunfo sobre a dificuldade, o que pode ser dito também das outras belas-artes. Olhando para uma estátua, um quadro, e lendo um poema, nos admiramos cada vez mais daquela arte que conseguiu conferir tamanha flexibilidade ao mármore, que engana os olhos com tintas; e nos versos, apesar dos obstáculos impostos pela métrica e pela rima, nos expressamos com a liberdade da linguagem comum: ao traduzir um poeta em prosa, necessariamente roubamos todas essas qualidades do original.

Por fim, o caráter dos versos é muito distinto do caráter da prosa. A ousadia do poeta intimida o tímido prosista; a vivacidade do primeiro contradiz a compostura do segundo, e a rapidez dos versos não pode jamais ser transmitida para a vagarosa prosa. O que é impressionante nos versos se torna ríspido na prosa, o que é forte se torna rude, o que é vivo, muito fogoso, o que é ousado, temerário; e o prosista sem sentir vai ceder lugar ao caráter da prosa, substituir a força por fraqueza, a linguagem figurada pela simples, a harmonia métrica pela forma de falar do dia a dia e, por fim, o encanto do triunfo do poeta sobre a dificuldade pela agradabilidade insignificante da prosa fácil. Deixe que ele seja mais fiel que o poeta ao expressar alguns pensamentos e na observação exata da ordem! O poeta lhe cede essas vantagens de pouca importância e essa fidelidade ilusória, que não consegue suprir a verdadeira: pois a ousadia, a rapidez, a harmonia e as figuras constituem atributo essencial da poesia.

Àqueles que asseveram que até a melhor tradução em versos desfigura o original e diminui sua beleza, eu apontarei Homero, traduzido por Pope [4]. Muitas pessoas que sabem grego afirmam que gostam mais da Ilíada em inglês do que da grega. A tradução de Virgílio feita por Dryden é mais fraca [5]; mas ele nos apresenta a Virgílio de maneira bem mais íntima e direta do que todos aqueles que traduziram esse poeta em prosa; pelo menos nós vemos um poeta expressando os pensamentos de outro poeta.

Digamos algumas palavras sobre as regras às quais é indispensável se ater, ao traduzir versos em outros versos. Em primeiro lugar, considero a fidelidade demasiada como demasiada infidelidade. Por exemplo, se uma expressão é nobre no idioma original, mas a expressão que lhe corresponde no seu idioma é vulgar, ao ser excessivamente exato, você humilha a nobreza do original, substituindo-a por baixeza.

Além disso, casos em que uma expressão é ousada no original, mas é excessivamente ríspida na língua do tradutor; em vez de ousadia, eu encontrarei rudeza na sua tradução exata.

Ou quando, no original, a junção de algumas palavras produz harmonia; mas as mesmas palavras, juntadas na tradução, ofendem a um ouvido delicado, e você, com a sua exatidão, precisará eliminar a harmonia.

Se no original, aquela expressão e aquela locução são novas, mas na sua língua, ao contrário, elas perderam sua novidade, gastas pelo uso, você estará trocando o extraordinário pelo ordinário.

Algum pormenor geográfico ou uma atitude com relação aos costumes do poeta que você está traduzindo podem ser agradáveis à nação para a qual ele escreveu seu poema; mas você causará apenas estranheza, se quiser conservar sem falta todas essas relações e pormenores na sua tradução.

O que, no fim das contas, faz um tradutor hábil? Ele se familiariza com as peculiaridades de ambas as línguas. Se elas forem parecidas na sua essência, então resta-lhe apenas ser fiel; se, ao contrário, forem distantes uma da outra, ele tenta preencher os vácuos com uma refinada aproximação das línguas, emprestando do original tudo o que puder emprestar, e conservando, ao mesmo tempo, todas as normas do seu próprio idioma. Todo escritor, pode-se dizer, tem uma fisionomia própria: mais ou menos vivo, mais ou menos veloz, mais ou menos espirituoso; por isso, ao se traduzir, por exemplo, Virgílio, que tem um estilo simples, claro e comedido, não se deve emprestar de Ovídio nem a suntuosidade, nem a prolixidade, nem a profusão do modo de se expressar.

Não se esqueça da natureza do poema: não se pode traduzir Eneida num estilo que seria conveniente somente para as Geórgicas6. Não esqueça, também, que o poema que você está traduzindo se compõe de partes, cada uma das quais toma de empréstimo sua forma peculiar dos raciocínios e do movimento característicos ao estilo. Os raciocínios podem ser simples ou brilhantes, ou divertidos, ou elevados: o tradutor é obrigado não apenas a não misturar esses tons diferentes, essas cores diferentes, como a conservar, o quanto possível, até as nuances principais. O movimento característico do estilo depende especialmente da combinação de períodos longos e frases curtas, e o tradutor não deve nem roubar a velocidade do verso forte, isolado dos outros, expressando-o em muitas palavras, nem desdobrar em partes menores o período cujo valor principal é a harmonia e a grandeza; acima de tudo ele deve ser fiel à harmonia, que, ouso dizer, pode às vezes ser vitimada pela exatidão e pela força. A poesia é como um instrumento musical, no qual o efeito agradável gerado pelos sons deve ser considerado mais importante que a fidelidade à partitura.

Por fim, o tradutor deve reservar para cada componente da frase o lugar que ele ocupa no original, sempre que o desenvolvimento gradual e o encadeamento natural dos pensamentos assim o exigirem. É indispensável expressar as linhas fortes com a brevidade que lhes é característica; consequentemente, o que é dito pelo autor em um verso deve ser expressado em um verso pelo tradutor também: espalhar faria perder a força.

Mas o principal dever do tradutor, ao qual todos os outros se submetem, consiste em tentar, em cada parte da tradução, produzir o mesmo efeito que o original produz. Ele é obrigado a, na medida do possível, nos apresentar, se não as mesmas belezas, pelo menos a mesma quantidade de belezas. O tradutor pode ser comparado a um devedor que se obriga a pagar, se não com a mesma moeda, pelo menos a mesma quantia. Por exemplo, se ele não consegue, na sua tradução, conservar esta ou aquela imagem, que tente substituí-la por uma ideia: se não consegue pintar para agradar o ouvido, que pinte para agradar o intelecto; se não consegue o mesmo vigor, que substitua o vigor pela harmonia; se não consegue ser breve, que seja rico; se prevê que precisará enfraquecer o original neste ponto, que o fortaleça em outro e devolva no fim o que foi roubado no começo; em uma palavra, ele deve sem falta agarrar-se firmemente a um rígido sistema de compensação, tentando, porém, o quanto for possível, manter a proximidade ao caráter principal do original. De tudo o que se disse acima, decorre que nunca se deve comparar os versos do tradutor com os versos que lhe correspondem no original: o correto é julgar o valor de uma tradução pelo efeito essencial do todo.

Mas para traduzir dessa forma, é indispensável não apenas imbuir-se, como dizem, do espírito do seu poeta, tomar emprestado seu caráter e mudar-se para sua pátria; deve-se buscar suas belezas na própria fonte delas, isto é, na natureza; para imitar-lhe mais comodamente na representação das coisas, é preciso ver você mesmo essas coisas, e nesse caso o tradutor se torna um criador. Se você quer traduzir Thomson7: saia da cidade, mude-se para o campo, deixe-se cativar por aquela natureza que você quer representar junto com o seu poeta: ela será, para você, a melhor intérprete dos pensamentos dele.

Observações


Editado pela primeira vez no jornal Viestnik Evropi (O Mensageiro da Europa), 1810, Parte XLIX, 3, páginas 190–198; tradução do francês {Conforme estabeleceram os comentadores da edição “V. A. Jukovski: Estética e crítica” (M., 1985, página 402), o artigo é uma tradução de parte da introdução de Jacquer Delille à sua tradução para o francês das “Geórgicas” de Virgílio (1784).} Impresso de acordo com a edição: Traduções de Jukovski, páginas 73–80.

1–3 François de La Rochefoucauld (1613–1680) — personalidade política e escritor francês, autor do livro de fragmentos filosóficos e aforismosReflexões ou Sentenças e máximas morais”. Jean de La Bruyère (1645–1698) — escritor moralista francês, autor do panfleto político “Os Personagens ou Costumes do Século”. Nicolas Boileau-Despréaux (1636–1711) — poeta francês, um dos principais teóricos do classicismo, autor de sátiras e do tratado sobre poesia “A Arte Poética” (1674), composto imitando a “Arte Poética”, do poeta romano Horácio.

4–5 Alexander Pope(1688–1744) — poeta inglês, um dos responsáveis por ditar os gostos poéticos da época do Renascimento, que compôs as traduções clássicas para o inglês de “Ilíadae “Odisseia”. John Dryden (1631–1700) — poeta e dramaturgo inglês, e tradutor da “Eneida” de Virgílio.
6 Jukovski está falando sobre as diferenças entre os estilos do poema épico de Virgílio, “Eneida”, e do seu poema didático Geórgicas”.

7 James Thomson(1700–1748) — poeta sentimentalista escocês, autor do ciclo de poemas “As Estações” (1726–1730).



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Traduzido por Érika da Silveira Batista de “О переводах вообще и в особенности о переводах стихов”, de Vassíli Andreievitch Jukovski, disponível aqui, em meio a outros artigos do autor.

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