BLOG PARA DIVULGAÇÃO DA LITERATURA RUSSA AOS FALANTES DE LÍNGUA PORTUGUESA.

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Um queixa comum de quem começa a ler literatura russa é não conseguir decorar os nomes, com frequência considerados longos e complicados. 
Por isso, no post de hoje do #vocabulariorusso, em vez de comentar um termo específico, explicaremos a estrutura e outros pormenores da formação dos nomes russos.
Entendendo a lógica que os rege, fica bem mais fácil decorar.

Vamos lá.

1) ESTRUTURA BÁSICA DO NOME RUSSO


Os russos geralmente não carregam o sobrenome da mãe, como nós carregamos. Talvez por causa da estrutura da sociedade, bastante patriarcal, é só o pai que aparece no nome da criança. Na verdade, se um(a) russo(a) te disser seu nome completo, você já sabe o nome do pai dele(a), de quebra.

Um nome russo se compõe de PRENOME + PATRONÍMICO + SOBRENOME.

O patronímico é composto do nome do pai da pessoa, mais o sufixo -ovitch/-evitch (conforme o caso) para filhos homens, ou -ovna/-evna para filhas mulheres.

Exemplo:

Ivan Alekseievitch Bunin => pai Aleksei Bunin
Marina Ivanovna Tsvetaeva => pai Ivan Tsvetaev

2) PARA QUE SERVE O PATRONÍMICO?


Além de indicar o nome do pai da pessoa, claro. 

Bom, o patronímico denota a linguagem formal ou respeitosa. 

Sabe como nós falamos Sr. Fulano, Sra. Sicrana, Dona Beltrana? A língua russa não tem essas palavras introdutórias (na verdade, as palavras existem, mas não costumam receber esse uso), e então utiliza-se o nome e o patronímico de alguém quando se quer tratar a pessoa de maneira respeitosa. 

É por isso que, nos diálogos dos livros russos é tão comum encontrar pessoas se chamando de "Ivan Nikolaevitch", "Iulia Mikhailovna", "Andrei Petrovitch", em vez de usar só o prenome (Ivan, Iulia, Andrei).

Os russos são bastante formais na linguagem. Sabe quando, no português arcaico, as pessoas mais "importantes" (um professor, uma autoridade, etc) ou mais velhas eram tratadas por "vós"? Pois é, em russo, isso ainda existe; usa-se o pronome "vy" (вы).

(Na verdade, nós também somos formais muitas vezes sem perceber: já repararam como falamos com nossas avós? "Vó, a senhora quer..." É na terceira pessoa!).

Durante o período soviético (maior parte do Século XX), o tratamento "Camarada Fulano" muitas vezes substituía esse uso do nome + patronímico - talvez numa referência à ideia de igualdade/fraternidade do comunismo. Mas nos livros anteriores a 1917 você vai encontrar esse tratamento com os "Ivan Ivanovitch" e afins com muita frequência, e hoje em dia, se for falar com um russo mais velho que você... bom, já sabe como se dirigir a ele.

3) FINAIS DIFERENTES PARA SOBRENOMES FEMININOS


Vocês possivelmente repararam, no exemplo acima, que o sobrenome da poeta Marina é "Tsvetaeva", mas o do pai dela, "Tsvetaev". Isso acontece porque os sobrenomes russos ganham um "a" na sua versão feminina. 

Repare em alguns nomes famosos: 
Anna AkhmatOVA, Valentina TereshkOVA, Maria SharapOVA; MAS
Mikhail LermontOV, Leonid BrejnEV, Nikolai RomanOV.

4) COMO RECONHECER UM SOBRENOME RUSSO?


É fácil reconhecer quando alguém tem ascendentes russos (ou de outros povos eslavos, como ucranianos, bielorrussos, poloneses, etc.) pelos sobrenomes. 

Há exceções, inclusive de pessoas importantes (Tolstói, Gogol), por causa das migrações e mistura de famílias, entre outros motivos, mas com muita frequência:

a) os russos tem sobrenomes que terminam em -ov(a), -ev(a) ou -in(a): Pushkin, Gagárin, Gorbatchev, Ieltsin, Akhmatova, etc.

b) sobrenomes ucranianos terminam com -o: Vitaly Klitschko (prefeito de Kiev), Piótr Poroshenko (atual presidente da Ucrânia), Yulia Tymoshenko (ex-primeira ministra e política nacionalista ucraniana).

c) sobrenomes poloneses terminam em -ski (homem) ou -ska (mulher): alguns políticos de nomes trava-língua como Adam Jerzy Czartoryski, Andrzej Frycz Modrzewski ou essas atrizes de nomes igualmente travadores de línguas, Anna Przybylska, Marta Zmuda Trzebiatowska, Katarzyna Sowinska.

Uma curiosidade é que esse final dos nomes poloneses corresponde ao final dos adjetivos nas línguas eslavas. Então, esses sobrenomes podem ter se originado de qualificativos das pessoas, como "Fulano, O Valente", "Beltrana, A Valorosa" e etc. 

Já os finais dos sobrenomes russos têm sufixos que até hoje indicam posse: os finais -ov e -ev, que aparecem no plural de muitas palavras masculinas no caso genitivo (ex: "Medvedev", dos ursos). Os primeiros sobrenomes com esses finais se formaram do prenome do fundador da linhagem (Ivan - Ivanov, Piotr - Petrov, Vassili - Vassiliev) ou de sua profissão (kuznets, ferreiro - Kuznetsov) ou apelido, entre outras origens mais raras.

Essas formas de compor sobrenomes geram às vezes uns bem engraçados. Há, por exemplo, um político russo chamado Evgueni Satanovski. Os autores sabem aproveitar o efeito cômico em suas obras. Um exemplo é a novela "Diabolíada", do Bulgakov. О personagem principal de chama Korotkov (Коротков), que vem de korotki (короткий), curto, e faz referência à inteligência curta do personagem. Na mesma novela, um ponto vital da trama gira em torno do sobrenome de um personagem, Kalsonier (Кальсонер), que remete a "kalsony" (кальсоны), ceroulas.

5) POUCA INOVAÇÃO NOS PRENOMES, MAS MUITA NOS APELIDOS


Sabe aquele negócio dos filmes americanos em que todo russo se chama Ivan ou Tatiana? Então, na vida real não é bem assim, mas também não se distancia tanto. 
Eu falo com pessoas russas faz tempo. Num grupo de uns trinta amigos/conhecidos, há cinco Aleksandr, três Elenas, duas Tatianas, dois Viktors, dois Romans, dois Alekseis, dois Artem... 
Com exceção de um tempo no período Imperial em que os nomes batizavam as crianças com uns nomes estrambóticos (o que Gogol cutucou com maestria em uma de suas obras), e outro no auge da URSS, em que as pessoas colocaram nomes nos filhos com base em elementos da revolução (tipo Ninel, um nome feminino que é "Lenin" ao contrário), os russos tendem a colocar nos filhos nomes de santo ou nomes bíblicos. E repetem bastante.

Aí, quando você tem quatro Elenas na sua sala de aula e três primos chamados Andrei, a inventividade para apelidos cresce enormemente, por uma necessidade de diferenciação, e cada nome russo tem uma variedade enorme de apelidos e/ou diminutivos. Esses apelidos variam com o contexto (pejorativo, carinhoso, etc.) ou entre a pessoa que está falando e o dono do apelido (mães tendem a usar apelidos mais fofos, os amigos usam apelidos mais "másculos" e etc).

Nomes russos masculinos mais populares (com apelidos): Aleksandr (Sasha), Ivan (Vania), Vassili (Vássia), Andrei (Andriusha), Nikolai (Kólia), Piótr (Pétia), Aleksei (Aliósha), Dmitri (Dima), etc.

Nomes russos femininos mais populares (com apelidos): Elena (Lena), Natália (Natasha), Ekaterina (Kátia), Tatiana (Tania), Olga (Ólia), Aleksandra (Sasha), Nadejda (Nádia), Liudmila (Liuda), Maria (Masha), Irina (Ira), etc.

Inclusive alguns nomes femininos brasileiros (Vania, Tania, Sasha, Kátia, Nádia, Natasha, etc) correspondem a apelidos russos, femininos e/ou masculinos, como vocês podem reparar.

6) BÔNUS: O DIA DO NOME


Talvez você já tenha ouvido dizer que os russos comemoram o aniversário duas vezes por ano. Não é exatamente assim. O que se comemora da segunda vez é o "dia do nome" ou "dia do santo" (imeniny, именины), isto é, o dia do santo com cujo nome a pessoa foi batizada (como eu disse acima, boa parte da população tem nome de santo).

Essa tradição era bem comum na Rússia pré-revolucionária, se encontra de vez em quando nos livros da época. A comemoração era bem parecida com um segundo aniversário, mesmo, com comida e presentes e visitas. 

Com a Revolução de 1917 e o clima antirreligioso que se instalou durante o período soviético, a tradição foi abolida. O termo "imeninnik" (именинник) e "imeninnitsa" (именинница), todavia, sobreviveram para se referir a aniversariantes, do sexo masculino e feminino, respectivamente.

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