BLOG PARA DIVULGAÇÃO DA LITERATURA RUSSA AOS FALANTES DE LÍNGUA PORTUGUESA.

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Em uma época de vacas gordas e promoção da Amazon, eu comprei alguns livros do Dostoiévski nas edições da Editora 34, que são conhecidas pela qualidade das traduções, sempre diretas do russo. O único dos que eu comprei que eu não tinha lido ainda era Bobók, um conto curtinho, publicado por eles junto com alguns artigos analisando o conto. Esses dias peguei para ler, e concluí em um dia.



Apesar de eu ter me sentido enganada quando me dei conta que bem mais da metade do livro era composta dos artigos teóricos, o conto em si era bem legal, e mesmo a leitura desses artigos se provou interessante, pois eu fui apresentada a um estilo literário grego que não conhecia, e que foi o que o Dostoiévski usou nesse conto, a menipeia.

Sátira menipeia foi um gênero surgido entre os escritores greco-romanos, caracterizado por ser “aquela manifestação literária que focaliza a corrupção dos costumes e o luxo excessivo, além de expor o íntimo do homem para depois atingir as mazelas da sociedade” (Wandercy de Carvalho, 2008).

A obra que foi considerada o primeiro marco do gênero foi uma peça teatral em que um ilustre romano morria e contracenava com deuses e pessoas de várias classes em seu julgamento, inclusive com o Imperador Augusto. A ideia era que a morte, nivelando essas pessoas, removera as papas da língua de todo mundo, por assim dizer, e seus comportamentos reais foram revelados (a mesma premissa do Auto da Compadecida, do Ariano Suassuna).

Exatamente a mesma premissa foi usada por Dostoiévski no conto Bobók (que significa “fava” em russo, e nem o autor nem o tradutor nem os comentaristas explicaram a razão desse título). A primeira parte do conto se compõe das divagações de um escritor mal-sucedido e rejeitado, que tinha ido acompanhar um enterro em que nem era bem-vindo e, para se distrair… vai dar uma voltinha no cemitério.

Das divagações, eu destaco duas preciosidades. A primeira é uma citação indireta de Montesquieu:

Lembra-me uma galhofa espanhola, do tempo em que os franceses construíram a primeira casa de loucos há dois séculos e meio: “Eles trancaram todos os seus imbecis em uma casa especial para se certificarem de que eram pessoas inteligentes”. E de fato: ao trancar o outro numa casa de loucos você ainda não está provando sua própria inteligência. “K. enlouqueceu, significa que agora somos inteligentes”. Não, ainda não significa.

A outra é uma ideia muito a cara do próprio Dostoiévski mesmo, ventilada em outros livros dele:

“Admirar-se de tudo é, sem dúvida, uma tolice, não se admirar de nada é bem mais bonito e, por algum motivo, reconhecido como bom-tom. Mas é pouco provável que no fundo seja assim. Acho que não se admirar de nada é uma tolice bem maior do que admirar-se de tudo. Além do mais, não se admirar de nada é quase o mesmo que não respeitar nada. Aliás, um homem tolo não pode mesmo respeitar.”

Enfim, no cemitério, o narrador se senta em um túmulo, na área de alta sociedade (porém não alta o bastante para ser enterrada dentro da igreja). Quando está começando a divagar, começa a ouvir o maior papo no andar debaixo. Um general, um puxa-saco, uma moralista hipócrita da alta sociedade, um velho funcionário público corrupto e pervertido e um dandy pilantra e safado, além de mais uns poucos personagens, debatem, hostilizam-se, especulam sobre a situação em que se encontram e sobre seus novos vizinhos de cemitério. Daquele jeito bem dostoievskiano, com cada personagem tendo seus maneirismos de comportamento e linguagem, apesar de serem apenas vozes debaixo da terra.

Segundo ficamos sabendo pela explicação de um filósofo morto, repassada pelo puxa-saco, a vida dos mortos (que conceito louco) se prolonga por mais uns dois ou três meses, ou até por meio ano, concentrada em algum ponto da consciência, antes que eles passem de verdade ao sono eterno, por assim dizer (lembra "Ubik" do Philip K. Dick e seu conceito de meia-vida). É interessante ressaltar que esse filósofo diz que a vida se prolonga “como que por inércia”, e que esses meses de vida seriam uma espécie de última chance de se emendar que os mortos recebiam. Bem, a nossa sociedade de mortos de Bobók, encabeçados pelo dandy, rejeitam essa parte moral da explicação e decidem se aproveitar da situação da melhor forma que puderem, organizando-se para viver o resto de vida renunciando a toda a vergonha. Como tudo o que eles podem fazer é falar uns com os outros, entende-se que vão se ocupar contando suas histórias escabrosas, e (quase) todo mundo parece empolgado para isso, mas aí o nosso narrador espirra sem querer, os mortos calam a boca, e o conto acaba.

Destaquei o “como que por inércia” da explicação do filósofo morto, Platon Nikolaievitch (uma referência bem evidente a Platão, em cujas obras Dostoiévski parece ter encontrado algumas ideias que ventila no conto) porque acho que essa expressão é a chave da parte especulativa do conto, por assim dizer. Um dos motivos para pensar assim é que na primeira parte, nas divagações, o narrador já adianta essa ideia, quando indaga sobre por que os caixões são tão pesados, e relaciona a resposta com a inércia.

O princípio da inércia é aquele que conhecemos como 1ª Lei de Newton: “Um corpo em repouso tende a permanecer em repouso, e um corpo em movimento tende a permanecer em movimento.” Ora, a ideia do autor é justamente que, nesses meses de pós-morte inicial (?), apesar de terem, talvez, uma chance de se redimir, os mortos não fazem isso, porque sua vida segue, pelo princípio da inércia, nos mesmos fundamentos da vida que tinham na terra. É uma ideia interessante, que também está na base de outro livro que eu gostei, e se um dia eu reler, faço a resenha, O Grande Abismo, do C. S. Lewis.

Em suma, em O Grande Abismo, Lewis apresenta o inferno e o céu como aprofundamentos das condições em que as pessoas já vinham se colocando ao longo da vida. O exemplo mais emblemático, a meu ver, é que no inferno as casas são sempre distantes umas das outras e a cada dia distanciam-se mais, como resultado do isolamento em que as próprias pessoas se colocavam durante a vida, em virtude do seu egoísmo. E o interessante é que as pessoas no inferno, por mais que sofram com essas condições, não fariam nada diferente. Não querem mudar, e isso faz com que seu estado somente se agrave.

Enfim, concluído o parêntese, me parece que Dostoiévski usou uma ideia semelhante (antes de Lewis, obviamente, não sei se houve inspiração do escritor irlandês aí). A estreiteza do conto não o deixa explorar muito a ideia, mas o princípio está ali. A crítica à podridão e hipocrisia quase irreversíveis da alta sociedade é mordaz.

E, como sempre, nem mesmo a hipocrisia do próprio narrador (um provável alter-ego do autor) escapa à crítica. O conto acaba com ele lá resmungando, todo indignado com a desfaçatez dos defuntos, onde já se viu, diz que vai até passear em outras classes sociais para aliviar os ares, e de repente solta:
Mas voltarei sem falta àqueles. Prometeram suas biografias e toda sorte de anedotas. Arre! Mas vou procurá-los, vou sem falta; é uma questão de consciência!

Dostoiévski escreveu Bobók como resposta às críticas que recebeu por Os Demônios, publicado em 1872, e acho que ele estava no veneno quando escreveu, porque o conto é uma metralhadora de ironia para todo lado, desde a primeira frase:
Desta vez eu publico as “Notas de uma pessoa”. Essa pessoa não sou eu; é outra bem diferente. Acho que não é mais necessário nenhum prefácio.

Além da ironia mordaz, o elemento cômico e a visão clara, que não faltam nos livros do Dostoiévski, os críticos das análises que vêm junto na edição identificaram também, condensados nesse texto, todos os principais elementos que sempre se repetem constantemente na obra do escritor. Mas como isso é a opinião de outros comentaristas, deixo para vocês lerem isso nos próprios textos deles, se quiserem.

Assino embaixo, porém, quando dizem que a obra dá uma boa provinha de Dostoiévski para quem tem pressa.


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