BLOG PARA DIVULGAÇÃO DA LITERATURA RUSSA AOS FALANTES DE LÍNGUA PORTUGUESA.

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Você pode não encontrar a palavra "tchin" assim nos livros, porque ela costuma ser traduzida (por “patente”, "grau", "classe", "funcionalismo público", dependendo do sentido), mas esse conceito precisava compor o nosso #vocabuláriorusso porque o "tchin" permeia toda a literatura russa clássica, especialmente os livros ambientados em São Petersburgo, como os de Gogol e Dostoiévski. A cidade, que era a capital do Império Russo, por isso mesmo concentrava o maior número de funcionários públicos, mas os "tchinóvniki" (чиновники, termo derivado de "tchin") podiam ser encontrados por todo o país.

Enquanto o conceito de “tchin” já existia no período anterior ao reinado do tsar Pedro, o Grande, o termo “tchinóvnik” para se referir aos funcionários públicos (em especial os civis) surgiu com a “Tabela de Patentes” (Tabel o rangakh) estabelecida por esse imperador em 1722. A tabela visava organizar o serviço público e estabelecer uma equiparação hierárquica entre os cargos (dóljnosti, должности) civis, militares e da corte, dividindo-os em 14 graus ou classes (tchíny). Como tudo o que Pedro, o Grande fazia, a tabela tomou os cargos já existentes no serviço público russo e misturou com cargos ou patentes característicos dos países europeus; sua primeira versão continha 262 cargos, dos três tipos, divididos pelos 14 níveis, sendo o 1º o mais alto, e o 14º, o mais baixo.

Com toda essa pluralidade de cargos encaixados na tabela, ela não poderia deixar de servir de base para a formação da estrutura hierárquica da própria sociedade russa no período imperial, em que boa parte dos clássicos foram escritos. “Tchin” virou sinônimo de status, não só para os homens, mas para a família inteira: as esposas eram consideradas do mesmo “tchin” do marido e, como eles, se sujeitavam a multas, caso cometessem contravenções contra a patente. As roupas e veículos de transporte de cada um deviam corresponder ao seu “tchin”. Era possível ascender socialmente e até ganhar títulos de nobreza por meio de promoções no serviço público. E, como a remuneração era proporcional, o “tchin” influía também nas condições materiais da pessoa, o local onde morava, o modo de vida que levava, e a estrutura psicológica que desenvolvia como consequência de todos esses fatores.

É assim que temos:

  • Tchitchikov, o malandro de Almas Mortas (Gogol), conselheiro colegiado, funcionário público de 6º grau.
  • Akaki Akakievitch, o protagonista limitado, bonzinho e sem ambição de “O capote” (Gogol), que precisa economizar e até passar fome por um ano para comprar um casaco de peles novo, é um conselheiro titular, funcionário de 9º grau.
  • No mesmo conto, a “pessoa importante” para quem Akaki pede ajuda para recuperar seu capote roubado tem um cargo equivalente ao de um general (ou seja, de 5º grau ou superior), e, ainda inseguro no posto ao qual acabou de se alçar, age como um idiota, intimidando subordinados, tentando impressionar os amigos, e misturando-se apenas com os seus pares nas festas, o que lhe acarreta uma reputação de chato, já que ele não tem assunto com eles e sempre fica calado.
  • Várvara Petrovna Stavroguina, uma das figuras centrais de Os Demônios (Dostoiévski), mecenas autoritária, é viúva de um tenente-general (3º grau).
  • Platon Kovalióv, outro protagonista de Gogol (“O nariz”), é assessor colegiado, funcionário público de 8º grau. Gostava de ser chamado de major, apesar de estar em vigor, na época do conto, uma proibição de os funcionários públicos civis usarem as patentes militares equivalentes. Ocorre que as patentes militares eram consideradas superiores às patentes civis de mesmo nível. Essa autoestima de Kovalióv deve-se, talvez, ao fato de que, na época dele, quem atingisse o 8º grau ganhava um título de nobreza hereditário.
  • O nariz de Kovalióv, por outro lado, enquanto teve vida própria, era conselheiro de Estado, pertencente ao 5º grau.
  • O homem do subsolo de “Memórias do Subsolo” (Dostoiévski) também era um assessor colegiado, e afirmava ter trabalhado no serviço público só para ter o que comer, aposentando-se assim que ganhou uma herança cuja renda lhe garantia a sobrevida. Ele parece ser uma pessoa com alguma instrução e ter se submetido às provas de capacidade que, dado momento, passaram a ser exigidas para quem atingia esse posto, ao contrário de Kovalióv, que galgou ao posto desejado pela exceção da lei – o serviço no Cáucaso.

Ao longo da história do Império Russo, os cargos da tabela de patentes mudaram muito. Muitos foram morrendo ainda nos tempos de Pedro I. Algumas denominações, no entanto, permaneceram até a Revolução de 1917, muito depois da extinção dos cargos para as quais foram criadas, fazendo que as denominações não correspondessem exatamente às funções dos cargos. Depois, com o advento do regime comunista, adotou-se toda uma nova (e também complexa) estrutura burocrática. O termo “tchinóvnik”, porém, é usado até hoje na Rússia para designar funcionários públicos civis.

Decorar cada cargo público que aparece nos livros russos e seus níveis hierárquicos correspondentes seria inviável e atrapalharia o prazer da leitura. Além disso, é desnecessário, porque a maioria dos livros russos traduzidos traz em nota de rodapé o “tchin” dos cargos eventualmente mencionados pelos autores, às vezes com outras notas pertinentes.

No entanto, saber o que era o “tchin” e o quanto ele influenciava a sociedade dos séculos XVIII e XIX abre nossos olhos para uma nova dimensão de significado nas obras dos notáveis escritores que tinham no “tchinóvnik” seu personagem de estimação.

Um comentário:

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