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Gogol para apressados: O nariz



Craaazy genius.

Fazia muito tempo que não lia Gogol, e tinha até esquecido por que costumava enumerá-lo entre meus escritores favoritos, quando indagada sobre eles. Daquele jeito que a gente esquece de como é sentir calor quando é inverno, e vice-versa. Mas é só o termômetro virar os vinte e cinco graus que a memória volta com força total.

Foi o que aconteceu quando decidi reler Gogol.

Creio já ter mencionado em outra resenha que esse ano estou revisitando muita coisa no original. Mas vou comendo pelas beiradas, encarando contos e novelas primeiro, sem muita fé no meu fôlego para devorar um livrão. Assim, apesar da saudade de Almas Mortas, os escolhidos para degustar o autor russo-ucraniano novamente foram os (há muito esquecidos por mim) contos O nariz e O capote, historinhas menores em extensão, mas nas quais Gogol já está todinho.

Hoje veremos O nariz.

(Ok, isso soou estranho).

O enredo desse conto é simples: um funcionário público perde o seu nariz.


Mas não tenta matar nenhum adolescente por causa disso. Aprenda, tio Voldy.


A coisa fica um pouco (mais) estranha, porém, quando o nariz é encontrado mais tarde andando sozinho pelas ruas de São Petersburgo.

O nariz é o primeiro a aparecer no conto. Na casa do barbeiro, dentro de um pão que a esposa dele acabara de tirar do forno. (Eu estava tomando café da manhã quando repassei o conto na mente para escrever essa resenha, e não foi uma lembrança legal). Bem, aparentemente, o barbeiro em questão já tinha fama de barbear bem rente, pondo em risco os narizes dos clientes, até porque, segundo sua esposa, sua bebedeira contumaz roubava-lhe a firmeza das mãos. O nariz não está ensanguentado nem nada, simplesmente aparece ali, e enquanto nos recuperamos do choque, o barbeiro reconhece o nariz, lembra do seu dono, mas não consegue lembrar se o teria arrancado ou não, e, sob ameaças da mulher — que não queria saber de um nariz alheio metido nos seus aposentos — resolve se livrar do artefato.

Logo a cena se dissolve em névoa, bem ao estilo de Gogol, e nós acordamos na casa do assessor colegiado (que prefere ser chamado de major) Kovalióv, para acompanhar sua traumatizante descoberta de que está denasalado. Olha no espelho e constata que o centro do seu rosto está liso, sem nem as fendinhas ofídicas do Lord Voldemort.

Os planos matrimoniais e toda a respeitabilidade do assessor arriscam ir por água abaixo na ausência do órgão olfativo, então ele toma as medidas que qualquer pessoa que perdeu algo tomaria: faz queixa na polícia, tenta por um anúncio no jornal, e sai para um passeio pelas redondezas, a ver se encontra o objeto. Cobrindo cuidadosamente a área lisa com um lenço, claro.

E, por incrível que pareça, é no passeio que Kovalióv encontra seu nariz. Vestido com primor, andando, e com um cargo público mais elevado que o dele, o que deixa o assessor colegiado numa sinuca de bico, sem saber como abordar apropriadamente o próprio nariz.

Criando coragem, Kovalióv chega para o seu nariz na Igreja e roga que ele volte ao lugar para o qual foi criado. O nariz, porém, se faz de desentendido, o que, aliás, nada tem de estranho: por que um nariz livre voluntariamente se anexaria ao rosto de um subordinado?

Ele dá no pé. E Kovalióv sai atrás. Suas tentativas de recuperar o membro, porém, restam malsucedidas, e, no fim do dia, o encontramos em sua casa, desanimadíssimo.




Quando Kovalióv já está perdendo a esperança, a polícia cumpre seu dever e leva de volta ao lar o membro desaparecido e encontrado. Uma péssima surpresa vem testar a paciência restante do assessor: o nariz não fica colado no lugar de jeito nenhum, e o médico o aconselha e nem tentar fixar.

Ele se indigna, escreve para uma pretendida sogra, culpando-a vagamente por causar todo o incidente com uma mandinga, como vingança por não ter se casado com a filha dela. Pretende prestar queixa oficialmente contra ela, mas depois desiste, e o capítulo novamente se encerra em névoa, enquanto Kovalióv está lá pasmo, tentando entender tudo o que acabava de acontecer.

E, de um capítulo para o outro, o nariz volta ao rosto do assessor colegiado, tão subitamente quanto sumira. Kovalióv fica sem entender nada, nós também, e, aparentemente o próprio escritor.

O conto encerra com o narrador dizendo que tudo o que foi narrado é extremamente estranho e improvável, inacreditável até, e sublinhando os episódios surreais, sem defender com energia sua veracidade.
“Mas o que é mais estranho”, Gogol diz, na maior cara de pau, “o mais incompreensível de tudo é: como os autores podem aceitar um enredo desses. Confesso, isso já é completamente inconcebível, com certeza… não, não, não entendo de jeito nenhum. Em primeiro lugar, não há nenhum proveito à pátria; em segundo lugar… mas nem em segundo lugar há algum proveito. Simplesmente não sei o que é isso…”

Também não sei. Achava que, depois de passado tanto tempo da primeira leitura, a idade me abriria os novos sentidos que não compreendi da primeira vez. Ledo engano. Então parti em busca de iluminação, lendo e assistindo resenhas, comentários, e até esse curta ficcional surrealista de oito minutinhos, dedicado pela diretor a Daniil Kharms, chamado Como Gogol escreveu “O nariz”:






Não precisa saber russo para entender a animação.


Foi engraçado perceber que a sensação de perplexidade que eu senti ante esse conto aparentemente sem quê nem por quê foi compartilhada por muitos leitores. O sentimento de “Ué, acaba assim?!” e o de “Nossa, que história doida” foram compartilhados pelo pessoal deste Clube do Livro:





Outras pontos interessantes foram levantados também, como a possibilidade de a novela ser uma paródia aos enredos fantásticos do Romantismo alemão, em que desaparecimentos de partes do corpo e agregados, como a sombra, eram comuns (especialmente nas histórias de E. T. A. Hoffmann). À diferença dos romances alemães, porém, não existe um culpado definido para a peregrinação do nariz de Kovalióv, ele só vai dar uma voltinha e pronto, o que reforça a comicidade grotesca da situação.

A questão da imagem, representada pelo nariz, também se evidencia entre os possíveis sentidos da obra. Tanto no sentido individual  —  o estrago que a perda da imagem faz na autoestima de uma pessoa  —  quanto no sentido social: a imagem que Kovalióv tinha de si mesmo (seu nariz) estava três graus hierárquicos acima do seu status social real.

Aliás, a sátira ao funcionalismo público e ao funcionamento das estruturas sociais parecem ser o cerne oculto por trás da fantasia do conto.

Alguns absurdos ficam evidentes até para o leitor moderno, como o ridículo de se dirigir à polícia ou ao jornal para anunciar a perda de um membro do corpo, ou a timidez do protagonista em abordar o próprio nariz porque ele está vestido como superior na hierarquia.

A coisa vai mais fundo, porém. A estudiosa de literatura Olga Dilaktorskaia rastreou várias das referências do conto ao código unificado sobre o serviço público promulgado na época do autor, que, alterando a dinâmica do funcionalismo público em alguns pontos, repercutiu em todo o modo de vida da sociedade petersburguense, fortemente influenciada pelo tchin.

A data da perda do nariz (25 de março) remete à obrigatoriedade de os servidores públicos comparecerem ao serviço religioso nesse dia, em virtude de lei; é por isso que Kovalióv encontra o órgão olfativo na Catedral de Kazan, uma das igrejas petersburguenses onde os funcionários costumavam cumprir esse dever.

O código molda até a personalidade do protagonista, um carreirista que usa as exceções da lei a seu favor  —  alcançou o 8º grau servindo no Cáucaso, e não sendo aprovado nas provas necessárias  —  e por isso mesmo dá tanta importância à própria imagem, já que ela é fundamental para continuar escalando socialmente. Sua vaidade é tanta que, apesar de ser proibido um servidor civil usar um título militar (pois as patentes militares tinham, por lei, mais prestígio que as civis correspondentes), Kovalióv arrisca e pede que lhe chamem de major. Imagine-se, para tal homem, o impacto da perda de um nariz.

A naturalidade com que os órgãos responsáveis encaram o acontecimento inacreditável também não está ali à toa. Uma menção do texto ao incidente das “cadeiras dançantes” da rua tal aponta para um caso que parece ter acontecido em São Petersburgo na época, estando registrado no diário de alguns escritores, algo sobre mesas e cadeiras que tinham começado a se mexer sozinhas na casa de um funcionário público. Um padre teria sido chamado para exorcizar os objetos, e, depois, o caso fora encaminhado às autoridades, mais especificamente ao ministro da Corte.

O desenrolar do incidente real parece ter refletido a postura geral do governo do tsar Nikolai I, que encarava qualquer desvio da ordem como um problema de Estado, mesmo que o desvio em questão fosse completamente sobrenatural.

Digam o que disserem, mas acontecimentos assim ocorrem no mundo — raramente, mas ocorrem.

Essas alfinetadas decerto foram a razão dos inúmeros cortes a que a censura submeteu o conto, da primeira recusa à sua publicação, e a razão pela qual ele teria agradado tanto os contemporâneos de Gogol  —  além, claro, da esquisitice da história toda.

Num dos primeiros rascunhos, o episódio todo era explicado como um sonho de Kovalióv. Depois, Gogol tirou a explicação e deixou para os leitores interpretarem por conta própria os sentidos da narrativa e sua razão de ser.

Se pudesse ver o futuro, ele provavelmente riria de si para si, ao ver geração após geração ficar com pontinhos de interrogação em cima da cabeça após lê-la. O único consenso é que a história é um enigma que não conseguimos desvendar de todo, apesar de ter a chave bem embaixo do nariz.

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