BLOG PARA DIVULGAÇÃO DA LITERATURA RUSSA AOS FALANTES DE LÍNGUA PORTUGUESA.

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BORIS LEONÍDOVITCH PASTERNAK nasceu em Moscou em 10 de fevereiro de 1890, numa família judia originária de Odessa. Seu pai, Leonid, era pintor, e sua mãe, Rozália, pianista. Graças às profissões dos pais, Boris cresceu sempre cercado por artistas, conhecendo famosos pintores, músicos e escritores ainda criança. Chegou a dedicar-se à música por algum tempo na adolescência, antes de enveredar pela literatura. Também nessa época, uma queda de cavalo — literal — mal curada deixou-o ligeiramente manco para o resto da vida, circunstância que o livrou do serviço militar e, segundo o próprio Pasternak, contribuiu para seu despertar criativo. 

Ele concluiu o ensino fundamental com honras e ingressou na faculdade de Direito, mudando mais tarde para o curso de Filosofia. Nessa época, ele vai para a Alemanha, para se dedicar melhor à filosofia, e também visita Veneza com a família. Ao tempo em que concluiu os estudos universitários, porém, já tinha se desinteressado da filosofia, e nem chegou a ir pegar seu diploma. 

Seus primeiros poemas e o primeiro livro, “Um gêmeo nas nuvens” (Близнец в тучах), saíram em 1913. O autor não demorou a desgostar desse trabalho, considerando-o imaturo, apesar de a publicação ter marcado o momento em que o escritor passou a se considerar e se assumir como literato profissional. O segundo livro, “Acima das barreiras” (Поверх барьеров), saiu em 1916. 

Em 1921, os pais e as irmãs do escritor, com a ajuda do revolucionário Lunatchárski, conseguiram permissão para ir para a Alemanha, a fim de buscar tratamento médico para Leonid Pasternak. Não retornaram da viagem, porém, fixando-se em Berlim. Boris, que permanecera na URSS e juntara-se ao grupo literário LEF (Frente de Esquerda das Artes), criado por Maiakóvski, começou a se corresponder ativamente não só com sua família, mas com outros elementos da diáspora russa que tinham se fixado na Europa, como Marina Tsvetáeva. Mais tarde ele também começou a se corresponder com o poeta tcheco Rainer Maria Rilke, que conhecera ainda adolescente. 

Casando-se em 1922 com a pintora Evguênia Luriê, no ano seguinte, Pasternak publica o livro “Minha irmã — a vida” (Моя сестра — жизнь), que contribuiu para que ele fosse reconhecido como um dos maiores poetas do seu tempo, e testemunha o nascimento do seu primogênito, Evguêni. A década é farta em produção literária, com a publicação de diversas obras do escritor, tais como “Temas e variações” (Темы и вариаций, 1923) e até sua autobiografia, “Salvo-conduto” (Охранная грамота, 1930). 

É nesse período — fim da década de 1920, começo da de 1930 — que a obra de Pasternak recebe o maior reconhecimento por parte dos órgãos oficiais soviéticos. Na vida pessoal, essa época fica marcada pelo início de suas relações com Zinaída Neigauz, com quem empreende, em 1931, uma viagem à Geórgia, país pelo qual Pasternak se interessava intensamente. A viagem que termina com ambos largando os respectivos cônjuges e unindo-se em matrimônio em 1932. À segunda esposa ele dedica a maioria dos poemas do livro “Segundo nascimento” (Второе рождение, 1932). 

Sua última viagem ao exterior ocorre no ano de 1935, para participar de um congresso internacional de escritores em defesa da paz, onde sofre um colapso nervoso. No mesmo ano, de volta à URSS, intervém junto a Stalin em favor do filho e do marido de Anna Akhmátova, presos. Stalin manda soltá-los e recebe de presente do escritor um livro com traduções de canções georgianas. 

No ano seguinte, porém, as relações de Pasternak com os círculos oficiais pioram, ele começa a ter dificuldade em receber aprovação da censura, e a própria temática de suas obras vai se tornando mais pessoal. Em 1937, o esfriamento das relações com o poder se completa quando Pasternak se recusa a assinar uma carta de intelectuais e artistas favoráveis à execução do Marechal Tukhatchevski, durante os famosos Processos de Moscou. Ocupa-se, então, nesse período, com traduções, em especial de Shakespeare, Goethe e Schiller. 

Seu outro filho, Leonid, nasceu em 1938, e seu novo livro, “Nos primeiros trens” (В ранних поездах), coletânea de poemas escritos às vésperas e durante a segunda guerra mundial, saiu em 1943. Em 1946, o escritor conhece Olga Ivinskaia, que se torna sua amiga, amante e musa até o fim da vida dele. 

Em 1945, Boris Pasternak inicia a escrita de sua obra-prima, Doutor Jivago, que se estende até 1955. O livro, de início, não foi bem recebido na URSS, graças à ambiguidade na retratação das consequências da Revolução Russa presente na obra. Sua primeira publicação ocorreu na Itália, em 1957. Em seguida ele foi publicado na Holanda e na Grã-Bretanha, e em edição de bolso nos EUA. Chegou a ser usado pelos países do bloco capitalista como propaganda anticomunista, por meio de distribuição gratuita do livro a turistas do bloco soviético e tradução financiada para farsi financiada pelo governo britânico. 

Boris Pasternak vinha sendo cogitado para receber o Prêmio Nobel desde 1946. Concorreu em 1946, 1947, 1948, 1949, 1950 e 1957, e em 1958 foi, finalmente, laureado com o prêmio. Na União Soviética, porém, tal decisão foi considerada política, outra manobra da Guerra Fria, seguindo-se a condenação do autor pela mídia nacional. O Nobel de Literatura é concedido pelo conjunto da obra do autor, mas a proximidade da publicação de Doutor Jivago e sua popularidade no ocidente acabaram por unir os dois eventos aos olhos dos órgãos oficiais soviéticos. Pasternak foi expulso da União dos Escritores da URSS, pronunciado “ovelha negra” e traidor em reuniões, teve sua expulsão e expatriação consideradas e foi chamado a depor em um processo criminal. Em meio a tamanha pressão, ele recusou, por telegrama, o Nobel.

Isso não impediu Doutor Jivago de continuar a se espalhar pelo mundo com rapidez, e, em 1959, o livro ganhou sua primeira adaptação para as telas: uma novela brasileira produzida e exibida pela TV Tupi. 

O escritor faleceu em 1960, com 70 anos, de câncer de pulmão. Não chegou a assistir a mais famosa adaptação de sua obra para os cinemas, o filme Doutor Jivago, dirigido por Sir David Lean e estrelado por Omar Sharif, que saiu em 1965, e recebeu cinco estatuetas no Oscar de 1966, além de diversos outros prêmios, a despeito das três horas e vinte de duração.

Após a morte do autor, os órgãos oficiais soviéticos foram pouco a pouco revertendo a atitude negativa em relação a ele. Quase toda sua obra poética foi publicada em 1965, e em enciclopédias biográficas soviéticas de 1968 e 1975, figuravam artigos neutros sobre o poeta, sem menção, porém, a Doutor Jivago. O livro em questão só foi publicado na URSS em 1988, já às vésperas da perestroika, após a reversão póstuma da decisão que baniu Pasternak da União dos Escritores da URSS (1987). Em 1989, o escritor finalmente foi incluído na matriz curricular da disciplina de literatura do seu país.

Em português, além de diversas traduções de Doutor Jivago, existem as seguintes obras do autor: 

  1. Ensaio de autobiografia, tradução de Helena Parente Cunha, Delta, 1969 e Opera Mundi, 1971. 
  2. Melodia interrompida, tradução de António Ramos Rosa e Fernando Moreira Ferreira, Publicações Europa-América, 1959 (reedições em 1972 e 2002). 
  3. Salvo-conduto, tradutor não localizado, Bibliotex Editor (Diário de Notícias), 2003. 

Também há o conto “Cartas de Tula”, incluído na Nova Antologia do Conto Russo, da Editora 34 (org. Bruno Gomide), além de diversos poemas espalhados em antologias de poetas russos. Alguns desses poemas podem ser lidos aqui.

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